Como contratar o primeiro funcionário da loja
Contratar o primeiro funcionário da loja é um passo importante — e cheio de detalhes que podem sair caro se forem ignorados. Este guia mostra o caminho certo, da seleção ao registro, de forma prática e sem complicação.
8 min de leitura · Atualizado em 27/07/2026 · por Rafael Marques
Por que contratar o primeiro funcionário é um momento decisivo
Chegou a hora: o movimento da loja cresceu, você não consegue mais dar conta de tudo sozinho e percebeu que está perdendo vendas ou atendendo mal os clientes por falta de tempo. Contratar o primeiro funcionário da loja é um sinal de crescimento — mas também é um momento em que muitos lojistas cometem erros que custam caro lá na frente.
A boa notícia é que o processo, apesar de parecer complicado, segue uma lógica bastante clara. Neste guia, você vai entender cada etapa: como definir a vaga, selecionar a pessoa certa, fazer o registro correto e evitar as armadilhas mais comuns. E sim, em alguns pontos deste guia você vai ver a recomendação de conversar com um contador — porque em assuntos trabalhistas e tributários, uma orientação errada pode virar uma dor de cabeça enorme.
Antes de contratar: defina exatamente o que você precisa
📝 Nota do editor: Este momento é algo de orgulho mas também de atenção redobrada! As vezes vamos no impulso da plaquinha e o primeiro que chegar contratamos, mas isso pode ser tornar uma dor de cabeça, precisamos ter calma nessa hora e contratar de forma mais correta possível.
Qual problema você está tentando resolver?
Antes de sair anunciando a vaga, pare e responda: qual é a tarefa que está sobrando? Atendimento ao cliente? Organização do estoque? Caixa? Entrega? A resposta vai definir o perfil do candidato ideal.
Muitos lojistas contratam alguém "para ajudar em tudo" e acabam com um funcionário sem função clara, que nem o dono sabe como orientar direito. Isso gera confusão, retrabalho e, em muitos casos, demissão prematura — com todos os custos que isso traz.
Monte uma descrição de função simples
Não precisa ser nada elaborado. Um papel de caderno com os seguintes pontos já resolve:
- O que a pessoa vai fazer no dia a dia (ex.: atender clientes, operar o caixa, repor prateleiras)
- Horário de trabalho (ex.: segunda a sábado, das 9h às 18h)
- Habilidades mínimas necessárias (ex.: saber usar computador básico, ter experiência com atendimento)
- O que não é negociável (ex.: morar perto, ter disponibilidade aos sábados)
Essa clareza vai economizar tempo na seleção e evitar contratações erradas.
Quanto vai custar de verdade contratar um funcionário?
Este é o ponto que mais surpreende quem está contratando pela primeira vez: o salário combinado não é o único custo.
Encargos sobre a folha de pagamento
Além do salário, o empregador paga encargos trabalhistas que, dependendo do regime tributário da empresa, podem representar entre 20% e 35% a mais sobre o valor do salário. Os principais são:
- FGTS (8% do salário bruto)
- INSS patronal (varia conforme o regime)
- 13º salário (equivale a 1/12 do salário por mês trabalhado)
- Férias + 1/3 constitucional
- Aviso prévio (em caso de demissão sem justa causa)
⚠️ Atenção: os percentuais e obrigações variam conforme o enquadramento tributário da sua empresa (MEI, Simples Nacional, Lucro Presumido etc.). Antes de fechar qualquer conta, consulte seu contador para calcular o custo real da contratação no seu caso específico.
Regra prática para estimar
Uma estimativa usada com frequência por gestores de pequeno varejo é multiplicar o salário bruto por 1,5 a 1,7 para ter uma ideia do custo total mensal. Ou seja, se o salário é R$ 1.800, o custo real para a loja pode ficar entre R$ 2.700 e R$ 3.060 por mês. Mas repito: confirme com seu contador antes de tomar qualquer decisão.
Como encontrar candidatos para a vaga
Canais gratuitos e eficientes para pequeno varejo
Você não precisa de agência de emprego ou plataforma cara. As opções abaixo funcionam bem para a maioria dos lojistas:
- Indicação de conhecidos: ainda é o canal mais eficiente para pequenas lojas. Pergunte para clientes de confiança, fornecedores e outros comerciantes da região.
- Cartaz na vitrine: simples, barato e muito eficaz para vagas locais. Coloque o cargo, horário e forma de contato.
- Grupos de WhatsApp e Facebook da região: bairros e cidades têm grupos de vagas de emprego muito ativos.
- SINE (Sistema Nacional de Emprego): gratuito, o lojista cadastra a vaga e recebe encaminhamentos de candidatos.
O que evitar na divulgação
Não peça documentos pessoais na fase de anúncio. Não coloque exigências que possam ser discriminatórias (como restrições de aparência, idade ou estado civil). Além de antiético, isso pode gerar problemas legais.
Como selecionar o candidato certo
A entrevista no pequeno varejo
Esqueça roteiros complicados. Para a maioria das funções no varejo, uma conversa de 20 a 30 minutos bem conduzida já diz muito. Foque em:
- Experiências anteriores relacionadas à função — não precisa ser exatamente o mesmo segmento, mas o tipo de trabalho importa.
- Situações reais — pergunte como a pessoa agiu em situações concretas. "Me conta uma vez que você teve um cliente bravo. Como resolveu?" diz muito mais do que "você sabe lidar com clientes difíceis?".
- Disponibilidade real — confirme horários, transporte, se tem algum compromisso que pode conflitar.
- Motivação para trabalhar na sua loja — não precisa ser um discurso ensaiado, mas a pessoa precisa querer estar ali.
Período de experiência
A CLT permite contrato de experiência de até 90 dias (podendo ser dividido em dois períodos de até 45 dias cada). Use esse período para avaliar a pessoa com cuidado. Mas atenção: o contrato de experiência também tem regras e custos em caso de rescisão antecipada — converse com seu contador ou advogado trabalhista sobre como estruturá-lo corretamente.
Como fazer o registro do funcionário: o passo a passo
Documentos que o funcionário precisa entregar
- RG e CPF (ou CNH)
- Carteira de Trabalho (física ou digital)
- PIS/PASEP (número de inscrição)
- Comprovante de residência
- Comprovante de escolaridade (se a vaga exigir)
- Certidão de nascimento dos filhos (para salário-família, se aplicável)
- Dados bancários para depósito do salário
- Foto 3x4 (para alguns registros físicos)
Registro na Carteira de Trabalho
Atualmente, a maioria dos registros é feita de forma digital, pelo sistema eSocial. O empregador precisa estar cadastrado no eSocial para registrar o funcionário antes do início das atividades — não depois, não "assim que der". Registrar depois que o funcionário já começou a trabalhar é irregularidade e pode gerar multa.
⚠️ Se você ainda não tem cadastro no eSocial ou nunca fez um registro, peça ajuda ao seu contador. Esse processo tem prazo e sequência obrigatória.
Exame admissional
Antes de o funcionário começar a trabalhar, ele precisa passar por um exame médico admissional. É obrigação do empregador custear esse exame. O resultado precisa ser arquivado.
Integrando o novo funcionário à rotina da loja
Contratar bem é só metade do trabalho. Se você não integrar o funcionário direito, vai perder tempo corrigindo erros que poderiam ser evitados.
Faça uma integração prática no primeiro dia
- Apresente a loja: onde fica cada coisa, como funciona o caixa, onde guardar pertences pessoais
- Explique as regras básicas: horário de almoço, como tratar os clientes, o que fazer em caso de dúvida
- Apresente aos fornecedores e clientes frequentes, se fizer sentido
- Mostre como funciona o sistema de ponto (se houver)
Primeiras semanas: acompanhe de perto
Muitos lojistas contratam e somem — ficam na parte administrativa enquanto o funcionário novo fica perdido no salão. Nos primeiros 15 dias, esteja presente, tire dúvidas e dê retorno sobre o que está indo bem e o que precisa melhorar. Isso acelera muito a adaptação e reduz erros.
Estabeleça metas simples desde o início
Mesmo que seja uma meta simples como "atender no máximo X clientes por hora" ou "zerar o estoque atrasado até o final do mês", metas de vendas realistas definem com clareza o que é esperado do funcionário.
Erros mais comuns na primeira contratação
1. Contratar por pressão, sem perfil definido
A loja está caótica, você contrata o primeiro que aparece. Resultado: a pessoa não serve para a função, e você tem o custo de uma demissão prematura.
2. Não registrar antes do primeiro dia de trabalho
Qualquer dia trabalhado sem registro é vínculo empregatício configurado. Fiscalização pega, multa é pesada.
3. Esquecer os encargos no planejamento financeiro
Como calcular o custo de manutenção do negócio é fundamental — calcular só o salário e se surpreender com o custo real no final do mês é um dos erros mais comuns. Planeje considerando todos os encargos antes de fechar o salário com o candidato.
4. Misturar amizade com trabalho sem clareza de expectativas
Contratar um amigo ou familiar não é necessariamente um erro — mas precisa de mais clareza ainda nas regras, funções e consequências de descumpri-las.
5. Não usar o período de experiência para avaliar de verdade
O período de experiência existe para isso. Se a pessoa não está correspondendo, converse cedo, dê feedback e, se necessário, encerre o contrato dentro do prazo — com muito menos custo do que uma demissão depois do período.
Resumo: checklist para a primeira contratação
Use esta lista como guia antes de fechar a contratação:
- Função e horário definidos por escrito
- Custo total estimado com seu contador
- Vaga divulgada nos canais certos
- Entrevistas realizadas com pelo menos 3 candidatos
- Exame admissional agendado
- Documentos do funcionário coletados
- Registro feito no eSocial antes do primeiro dia
- Integração planejada para o primeiro dia
- Meta simples definida para o período de experiência
Contratar o primeiro funcionário da loja é um passo que muda a operação — para melhor, quando feito com cuidado. O processo tem etapas trabalhistas e tributárias que variam conforme a sua situação, então tenha sempre um contador de confiança ao lado para não errar nos detalhes que custam caro.
Perguntas frequentes
Posso contratar alguém como autônomo para evitar encargos trabalhistas?
Depende muito da situação. Se a pessoa trabalha com horário fixo, exclusividade e subordinação ao dono da loja, a lei pode entender como vínculo empregatício — mesmo que o contrato diga 'autônomo'. Isso é chamado de pejotização irregular e pode gerar passivo trabalhista alto. Converse com um contador ou advogado trabalhista antes de adotar esse modelo.
O MEI pode ter funcionário?
Sim. O MEI pode contratar até um funcionário que receba exatamente um salário mínimo ou o piso da categoria. Mais de um funcionário, ou salário acima disso, exige mudança de enquadramento. Consulte seu contador para entender o impacto disso no seu caso.
Quanto tempo tenho para registrar o funcionário depois que ele começa a trabalhar?
O registro deve ser feito antes do início das atividades, não depois. Qualquer dia trabalhado sem registro já configura relação de emprego e pode ser autuado em fiscalização. Use o eSocial para fazer o registro com antecedência.
O que acontece se eu quiser dispensar o funcionário durante o período de experiência?
É possível encerrar o contrato de experiência antes do prazo, mas há regras e custos envolvidos (como multa de 50% dos dias restantes, aviso prévio ou indenização, dependendo do caso). Sempre consulte seu contador ou advogado trabalhista antes de tomar essa decisão.
Preciso ter um sistema de ponto desde o início?
Empresas com até 20 funcionários estão dispensadas de controle de ponto formal por lei, mas ter algum registro — mesmo que simples, como uma folha assinada — protege o empregador em caso de disputa sobre horas extras. Vale criar um hábito de registrar desde a primeira contratação.